Ambulante Metamorfose
Quem sou eu
- Nome: Metamorfose Ambulante
- Local: São Paulo, São Paulo, Brazil
Um cidadão não tão jovem, espírito de estagiário, sempre procurando aprender, mas lutando para não esquecer as experiências e não repetir os mesmos erros.
quarta-feira, junho 27, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Foi Deus? O que você acha?
Foi Deus?
(Arnaldo Bloch)
Assisto a uma entrevista de um repórter da Globonews com um sujeito que correu atrás da van antes de ser soterrada mas não conseguiu embarcar por estar atrasado. Segundos depois, assistiu ao veículo ser sugado pela cratera. O repórter indaga: "O destino foi benéfico com você, não é?" O sujeito responde: "Foi Deus. Só pode ter sido Deus. É a única explicação". Putz. O cara se atrasou, o microônibus foi sugado. E ponto. Por que envolver Deus em assunto que é do tempo, do acaso? Então, quem morreu naquele microônibus, foi punido? É Deus que mata o velho na fila, a criança na lama, o cachorro na estrada? É incrível a soberba de um sujeito desses, que se vê merecedor maior de graça nos céus em vez de contemplar os fatos como são. Aqui não se trata de discussão teológica. Se Deus existir, deve estar indignado com o uso, assim, de seu nome em vão para explicar cada configuração lógica, cada resultante de diferentes caminhos, cada coordenada geoespacial. Foi Deus quem rompeu a barragem de lama química, que condenou milhares a perderem suas casas, que derrubou o Palace II, quem afundou o bateau Mouche, que salvou o cara que não embarcou no bateau Mouche por que teve uma gripe, que salvará os donos da mineradora quando sairem impunes, livres, pela cidade?
(http://oglobo.globo.com/blogs/arnaldo)
O que os leitores dele acharam:
"Por outro lado, se a Van tivesse parado para ele subir ia parar por uns minutinhos e talvez tivesse escapado da tragédia."
"Poxa, Arnaldo, pega leve, rapaz. Ali, não houve soberba. Foi a reação pra lá de humana de um sujeito humilde que quis demonstrar algum tipo de gratidão pelo fato de ainda continuar vivo. Você queria o quê? Que o elemento dissesse algo do tipo: "Viu? O sacana do motorista deu uma de gostoso, me fez engolir fumaça e dançou. Agora tá lá, fedendo no buraco! Mereceu, o vacilão!" Ô, rapaz, ponha a mão na consciência e pare de fazer de conta que o Bom Deus pede conselhos no teu divã. Vou atiçar a dupla do Pânico na tua cola. "
"Caraio, você disse tudo nesse texto. Muito bom! Dia desses vi um adesivo muito bom num carro, um monza bem velho caindo aos pedaços e estava escrito assim: "foi o diabo que me deu". Achei engraçado porque é uma alusão aos inúmeros carros escritos "foi deus que me deu". Será que eles não pensam que foi o dinheiro deles, com suor do trabalho que deu esse bendito carro? Sei lá, é mais fácil botar a culpar em alguém do que você assumir essa culpa e nesse caso, Ele não estará aqui pra se defender."
"Arnaldo, a gente sabe que as pessoas em geral (e não apenas o povão) dizem, para tudo, "graças a deus". Posso apostar que o sujeito não se acha merecedor de maior graça que seus pares e muito menos teve a intenção da soberba com tal afirmação. Simplesmente as pessoas pensam em si, no próprio destino e pronto. O jogador aparece com a (besta) frase "deus é fiel" e agradece aos céus o pênalti decisivo convertido. Então Ele é infiel para com o adversário, é o que se presume. E quanto à sua questão, acho fácil de responder: é CLARO que deus não faz os desastres. Quem faz é o diabo (para se crer em deus dessa forma, o sujeito TEM que acreditar no demo querendo sacanear todo mundo). "Deus conseguiu me salvar, certamente por ser mais crente, pelas minhas ocasionais orações, por crer Nele". Deus, na concepção do sujeito comum, é um mercador, poderoso sim, mas nada mais que isso. É por esse caminho, meu camarada."
"Também acho que o cara quis mostrar sua gratidão por estar vivo, sem a idéia de que Deus "castigou" as vítimas da tragédia. Como acredito em programação de vida, fico com o popular: não era a hora dele."
"Ouso aqui a interpretar diferente de você. O cara que fala assim não fala com soberba, ao contrário, fala com humildade, muito feliz por ter tido tanta sorte. Ele apenas está tão surpreso com o tamanho de sua sorte, que, tendo fé, agradece a deus, e usa o seu nome no lugar de "putz, como eu sou cagão!...". Duvido que ele pense que é abençoado e os outros, renegados por deus. Eu, pelo menos, não pensaria assim."
"Entre o "destino" e Deus, prefiro acreditar no segundo. Não digo que ele matou um e preservou outro mas dizer que é destino acho simplista. Muitas coisas tem a ver com as escolhas que nós fizemos, outras coisas fogem do nosso controle."
O jornalista completou:
"Continuando. Vejam bem, não estou aqui querendo punir o cara individualmente por achar que deus o protegeu, seja a afirmação reflexo de fé ou de uma obtusa "razão". Na verdade uso o exemplo para sinalizar a pobreza que rege nossas reflexões cotidianas. Outro dia uma amiga minha socióloga conversando sobre sua filha com uma outra mãe já saiu-se com bobagens astrológicas, e olha que da astrologia mais rasteira, sem estudo. vão dizer que é só pra jogar conversa fora, mas não: cada vez mais recorremos a facilidades, esoterices e crendices, e menos à razão para interpretar o mundo à nossa volta e seus mistérios, sejamos nós religiosos ou não."
E você, o que acha?
segunda-feira, janeiro 22, 2007
É assim que se mata o futuro
Nilda Teves o nome dela. Recebeu do então governador um depósito de menores infratores da Febem, recheou-o com o que havia de melhor. Como tinha poucos recursos, pedia. Tomava tudo de todos: computadores, papel, roupas, comida, uma kombi velha para o curso de mecânica e por aí vai. Um dia, a fiscalização entregou-lhe um carregamento de lagostas, fruto de pesca ilegal. Trocou-o com o dono de um restaurante por três computadores. Assim botou o CEI de pé e o abriu para a cidade. Reuniu a classe média e a pobreza nas mesmas salas, piscinas e quadras de esportes. Ao final de quatro anos havia crianças que se recusavam a entrar em férias. Nessa época, a "Veja Rio" dedicou uma reportagem de capa à escola com o título "Fábrica de profissões".
Com o fim do governo, Nilda retirou-se para a ap0sentadoria num pequeno apartamento, no Méier, numa transversal da rua Dias da Cruz. Certa vez me disse que ficava feliz ao ver "meus meninos no ponto de ônibus", com o uniforme que ela havia desenhado.
Conto-lhes isso porque acaba de ser destampado mais um baú de horrores do legado Garotinho. Já não há no CEI (que agora se chama Faetec) ensino técnico-profissionalizante. As oficinas de solda não têm eletrodos, a mecânica não conhece injeção eletrônica, a movelaria desapareceu, a padaria foi desmantelada. Uma dezena de salas de aulas práticas virou escombros. Instalaram-se ali cursos que oferecem a medida exata do que foram os dois últimos governos: alongamento, kickboxing e dança-do-ventre.
Alguém ainda deve lembrar dos anúncios sobre os extraordinários êxitos da administração do casal. Um deles dizia que o Rio de Janeiro era um campeão no ensino técnico, com 440 mil matrículas. Seria mesmo, não fosse o número deslavada mentira. O novo governo não encontrou nem 10% disso. A implosão do CEI de Quintino começou no primeiro mês do primeiro governo Garotinho, prosseguiu na curta administração de Benedita (que o ocupou com quadros do partido) e foi completada na segunda administração do casal.
Do ponto de vista da execução, um trabalho muito bem feito. Não restou traço da qualidade de ensino que havia ali. Não foi manobra contra partido adversário ou tranco em inimigo político, mas crime deliberado contra a sociedade. Não há maneira mais eficaz de matar o futuro do que negar a educação aos jovens.
Publicado por Xico Vargas - 16/01/07 12:01 AM
sábado, janeiro 20, 2007
Esses homens
Encontrei um amigo que não via há cerca de cinco anos. A última vez deve ter sido no parque ou em uma festinha das crianças, aniversário, comemoração da escola, essas alegrias ......
O reencontro foi festivo e agradável. Conversa vai, conversa vem, acabei perguntando pela sua mulher e filhos. Ele ficou surpreso e perguntou se eu não sabia da separação deles. Disse que não e lamentei o fato, mas ele falou que não tinha problema, que o casamento estava desgastado e que os dois acharam melhor se separarem antes que a coisa piorasse. Concordei com ele que era melhor separar numa boa do que manter um casamento fracassado.
Ele completou dizendo que tinham ficado amigos, ela casara novamente – que rápido, pensei – e eles se visitavam, ele com a namorada, ela com o marido (moderno, não?). Brinquei que assim iam surgir outros filhos nos dois casais. Falou que a ex-mulher não podia ter filhos pois ligara as trompas quando nasceu a segunda filha, mas que ele, quem sabe, a namorada estava naquela idade que as mulheres querem ter filhos, e ele, enfim, tinha encontrado a mulher da vida dele. A mulher da vida dele, repetiu.
Se a namorada é a mulher da vida dele, que mulher seria (ou teria sido) a esposa de quinze anos de casamento? Apenas aquela que esquentou a cama enquanto não chegava a mulher da vida dele? Mera reprodutora dos filhos dele?
Será que ela, a ex-mulher nunca tinha sido a mulher da vida dele? Nem quando resolveu casar? Casou porque então? Ou ele, cara de sorte, achou duas mulheres da vida dele? Ou seria o caso de ter-se duas vidas, logo uma mulher especial para cada vida?
Isso me lembrou outro amigo, que se separou alegando que, em trinta anos de casamento, não se lembrava de um dia de felicidade sequer. Trinta anos dão 10.950 dias. Nenhum desses quase onze mil dias foi feliz!! Pode?
Como é que alguém consegue viver onze mil dias seguidos sem ser feliz em nenhum deles? Não dá, né? Tantos dias infelizes certamente resultariam num tiro na cabeça, num pulo do Edifício Itália – trigésimo andar por favor, um para cada ano de infortúnio –, num salto na frente do Metrô na estação Paraíso. Se nada disso aconteceu, por onde andaria tanta infelicidade?
Tá na cara que isso é uma desculpa esfarrapada! Faltou hombridade para ele assumir que arranjou outra (mais nova, certamente), ou que se deu conta que o tempo está passando e que precisa “aproveitar a vida” (tema de futura crônica), ou que quer cair na farra junto com outros amigos separados, tem tanta mulher sobrando, etc. e tal.
E o pior é que a abandonada se culpou de tanta infelicidade: “Onde eu errei? “Será que ele não ficou feliz nem com o nascimento dos filhos?” “Quando compramos nossa casa?” “Naquela viagem ä França?” .........
Esses homens.
(José Frid)
terça-feira, janeiro 09, 2007
Ano Novo carioca
"Comigo dentro, não!"
Um pouco depois:
"Um feliz Ano Novo para vocês todos!"
Os estampidos ainda ressoam. Ninguém responde.
"Ô gente boa, animação, vamos lá. Feliz Ano Novo!"
A lembrança dos estampidos faz com que eles respondem em uníssono: "Feliz Ano Novo para você também!"
Ele sorri, satisfeito. Pede para o motorista parar o ônibus. Desce, coloca a mochila nos ombros, acena para os passageiros e some no meio do chuvisco, lá para os lados do Sambódromo.
O motorista fica olhando o vulto diminuindo, diminuindo .. ...
"Tá louco, motorista? Vamos que ele pode voltar pra acabar com nós!"
O motorista sai do seu torpor. Passa a marcha, sai devagar e pergunta sem olhar para trás:
"Pra onde vamos?"
"Pra delegacia", grita um. "Os que pularam podem voltar também!"
"Não é melhor ir para um hospital?", pergunta outro, informando que o Souza Aguiar está ali perto.
"Tão mortos. Melhor a delegacia", diz aquele que foi ao fundo do ônibus verificar.
Minutos atrás:
"Comigo dentro, não!"
Pipocam os estampidos. Tantos que não dá para contar. Dois pulam do ônibus em movimento pelo vão da janela quebrada.
Silêncio. Ele observa, ainda com a arma na mão. Um caído no chão, outro sentado, imóveis. Os passageiros, petrificados. O zumbido morno do ônibus em marcha lenta. Ele olha ao derredor. Nada. Lá fora só a chuvinha chata que vem caindo desde o outro ano.
Guarda a arma na mochila e se dirige à frente do ônibus dizendo "um feliz Ano Novo para vocês todos!"
Mais minutos atrás:
"Crack, clink."
Os ruídos da quebra do grande vidro traseiro do ônibus assustam os poucos passageiros que restaram. Ninguém olha para trás. Medo? Indiferença, costume, hábito. Não querem se envolver com traficantes, bêbados, drogados. O vidro é do ônibus, que cuidem dele o trocador e o motorista.
"Crash", cai um vidro lateral. O cobrador esboça uma reação .....
"Vamo trocar tiros", grita o quarteto ensandecido. O cobrador se encolhe no banco, quer sumir atrás da caixa de dinheiro.
Os passageiros agora se agitam, preocupados, disfarçam, olham para trás, procuram ver se a confusão vai sobrar para eles.
Os quatros percebem que dominaram o ônibus. Um grita que quem olhar para trás vai levar bala, outro berra para o motorista parar o ônibus, o terceiro joga uma lata de cerveja no corredor. O quarto sorri sentado, entorpecido.
Os passageiros obedecem, o motorista não. O que jogou a lata grita "vamo botar fogo!". "Fogo", repete o entorpecido. "Vamo queimar tudo", gritam os outros dois. "Fogo, fogo!"
"Comigo dentro, não!"
Algumas horas antes:
"Feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo", "feliz Ano Novo".
Espoucam rolhas de sidras e espumantes baratos. Parece tiroteio no salão. Agora é tiroteio, lá fora. O pessoal do movimento está nas lajes comemorando 2007. Depois fogos, fogos barulhentos, muitos fogos coloridos. Os quatro amigos se abraçam, juram amizade eterna, se prometem um belíssimo ano novo, com muita mulher, dinheiro, cerveja .......
5:30, manhã de um dia chuvoso:
O ônibus da linha 355 - Cordovil-Tiradentes sai do ponto final em direção ao centro da cidade. Tirando o motorista, o cobrador e outro homem que acaba de largar do trabalho, todos estão alegres, alterados pela bebida e outras coisas mais, falando alto, agitados.
Um quer ir embora, vai trabalhar mais tarde. Os outros três amigos dizem "vamo junto", é perigoso sair sozinho àquela hora. Beijos, abraços, latinhas para viagem, "vamo nós", "um por todos, todos por um".
"Olha o busão", "vamo arrepiar", "somos os quatro cavaleiros do Apocalipse" .....
6:20, primeiro de janeiro de 2007, centro do Rio de Janeiro:
"Comigo dentro, não!"
sábado, agosto 26, 2006
BIG GREEN FROGS
Sonhei que estava à porta de uma casa e, ao meu lado, sobre um tambor metálico, um sapo verde gigante. Quando a porta foi aberta, o sapão deu um pulo e já caiu no meio do salão. Depois, foi saltitando até sumir de vista. Se é que se pode dizer que um sapão saltita. Cada salto dele fazia o som de ploft, como uma grande geléia quicando no chão. Ploft, ploft.
Logo apareceram no salão outros sapões verdes, saltando despreocupados. Ante o meu espanto, o homem disse que eles eram inofensivos, criava-os com finalidades gastronômicas. Argh!
Ele me conduziu até um laboratório, onde eram criados os grandes batráquios. Depois, subindo uma escada, chegamos a uma sala de estar, na qual algumas pessoas conversavam. Daí para frente seguiu-se aquela normalidade maluca dos sonhos. Acordei com os grandes sapos verdes na cabeça. Seria uma mensagem do subconsciente? Do além? Um presságio?
Encafifado, não tendo um Freud ou uma cigana à mão, socorri-me do grande oráculo moderno. Tasquei logo no Google: sonhar com sapo verde gigante, busca em português. 15.500 respostas! Nada que assuste um surfista da net.
Com um clic fui parar no Antes o feio, blog, mas errei o tiro: o sapo aqui não é de sonho, é de piada. O sapo vira um príncipe horroroso e a princesa reclama. Ele encerra a conversa: quem beija até sapo gosmento está no perigo, não pode reclamar de homem nenhum!
Procurei um site mais preciso: O significado dos sonhos. Cliquei e fui parar no Simplesmente Mulher. Tudo a ver, não? Fui procurar o sapo. Ele estava numa consulta de uma consulente chamada Elaine: Sonhei que meu namorado pegava um sapo assassino gigante. O que significa? Horror: um sapo assassino gigante!! As pessoas sonham com cada coisa!! Ainda bem que os meus sapos eram mansinhos, comestíveis como uma vaca.
Cleide: sonhei que estava sendo perseguida por um sapo que tinha rabo comprido e fino (igual a um rato), mas não conseguiu me pegar, pois subi em cima de um poço, fiquei com muito medo e acordei assustada. Sapo com rabo de rato? Essa Cleide está pior que eu. Marília Madureira: Ando sonhando com sapos enormes, muito grandes, de tamanhos que seria impossível de ser realidade, de tão grandes, que são verdes e brancos e amarelos. Nooosssaaaa, como diria um amigo meio cá, meio lá, entendem?
Cleiti (?): Sonhei que morava num apartamento no décimo andar e minha mãe deixava meu cachorro pular da janela e ficava olhando como se fosse a coisa mais natural do mundo. De repente, do nada, ela me surge com um sapo com vestido de noiva da cor preta. e ela vinha me dar o sapo. Loucura, loucura, como diz o Huck.
Não achava as respostas para esses sonhos, mas clica daqui, fuça acolá, percebi que elas eram enviadas por e-mail. Pronto para mandar minha consulta com nick-name adequado (Clotilde), verifiquei que o serviço tinha terminado. Para não deixar as internautas a perigo, o site indicava onde poderiam ser encontradas as tão ansiosas respostas.
Dei no Dicionário dos Sonhos: sonhar com sapos quer dizer que tenta esconder sua verdadeira identidade e caráter. Deve ter mais confiança em si mesmo e deixar do que sua beleza interior se veja. Parece coisa de político à caça de votos: esconder identidade e caráter. Tal qual o sapão barbudo que nos desgoverna.
Passei para o Interpretação de Sonhos. Lá, ver o sapo significa intrigas perigosas; calúnias que envolverão um parente querido. Intrigas perigosas!! Que seriam? E verde, o que significaria? É um bom presságio sonhar com essa cor, pois é a cor da esperança, denotando, assim, novas amizades leais e duradouras; novos romances; negócios bons e rendosos à vista. E agora? Vale o presságio do sapo ou do sapo verde? E se o sapo for gigante? Coisa complicada.
Mas antes de prosseguir na busca ao sapo gigante verde, deixe-me registra o que aconteceu quando fui colar aqui o sapo do Interpretação de Sonhos. O Word deu o maior pau e travou tudo!! Perdi tudo que tinha digitado. Duas vezes! Tive de reiniciar o micro e redigitar de memória. Serão as bruxas? Um vírus em forma de girino?
Livro dos Sonhos está no site Anastácia Benvinda. Além de sonhos, traz o significado dos nomes e simpatias populares. Anastácia: vem do grego e significa Ressurreição. Bonito, não? Ressurreição bem vinda!! Sapo: na vida desavença entre amigos. No amor cansaço. E agora??? Seria essa desavença decorrente das intrigas perigosas da outra interpretação? Será que estão se abrindo os véus diáfanos do futuro? (lindo, não?) Já que estamos por aqui, vamos visitar O maior acervo de simpatias populares da Internet agora em seu computador! Aparecem várias capas de livros: Simpatias Ciganas, Simpatias Mágicas, Simpatias Bíblicas, Simpatias para Amor e Sexo, ... Voltarei quando precisar conhecer biblicamente uma pessoa renitente ......
No Significado dos Sonhos sapo é medo de pessoas ou acontecimentos inofensivos. Olha aí, pessoas ou acontecimentos inofensivos. Sapão inofensivo? Pode ser. E o dono da casa? Ele seria inofensivo ou está fazendo intrigas perigosas? Estou sentindo que estou quase lá. Lá aonde, perguntaria um leitor incrédulo. No âmago da questão, diria eu.
Armazém de Sonhos. Será que já estão vendendo sonhos também? Não os de padaria, os sonhados? O sapo aqui é igual ao do Significado dos Sonhos: inofensivo. Vou apelar para forças internacionais. Dicionário dos Sonhos em inglês!
Lá o meu sapão virou big green frog. Frog: Ver um sapo em seu sonho, representa um potencial para mudar ou fazer o inesperado. O sapo pode ser um príncipe disfarçado. Alternativamente, o sapo pode sugerir impurezas. Ver sapos pular em seu sonho, pode indicar sua falta de compromisso. Você tem a tendência de saltar de uma coisa a outra. Alternativamente, pode sugerir que você está fazendo exame de etapas principais para algum objetivo.
Pronto, achei um sapo pulando. Saltar de uma coisa a outra é a minha cara. Big green frogs seriam minhas grandes esperanças saltando de uma coisa a outra? Ou estaria examinando os grandes passos para atingir meu esperado objetivo? Estou exaurido com essa busca. Vou dormir e torcer para que os sapos falem comigo e expliquem a mensagem subliminar. Em troca, conto que o destino deles é a panela. Fujam!!!
sexta-feira, agosto 25, 2006
Primeira vez
terça-feira, agosto 15, 2006
A Realidade
terça-feira, agosto 01, 2006
Maturar
Maturar
Quando você envelhece, descobre que os amigos ranzinzas ficam mais ciumentos, prática sem cura, e você pára de implicar com eles e se diverte. Como pára de implicar com o blefador, que continua o mesmo, com o pão-duro, que só piora, com o teimoso, que insiste mais em suas opiniões, mesmo se estiverem furadas. Descobre que o engraçado tem novas e mais sofisticadas tiradas, e que a risada dele continua estremecendo o baralho. Descobre que a ressaca do uísque é melhor do que a da pinga, que prosecco e champanhe são só para brindar, que o vinho tinto argentino melhora a cada safra. Descobre que a comida deve vir com pouco sal e a salada, com muito azeite. Descobre que tomate e maçã fazem bem e embutidos, mal. Que queijos magros são mais aconselháveis do que aquele brie ou emental. Descobre que em inauguração de restaurante não se come, e que em lançamento de livro o vinho branco é alemão.
Descobre que aquela mulher por quem você foi apaixonado continua apaixonante, e o deixa sem graça toda a vez que olhares se cruzam. E mesmo que ela tenha se casado com seu inimigo, com quem teve quatro filhos, continua irresistível, e você fica sem graça ao lado dela como se ainda tivesse 16 anos, e ela sabe disso, e você não sabe por que enrolou tantas décadas nem por que você não a seqüestrou logo quando se conheceram na escola.
Quando você envelhece, descobre que todas as suas ex merecem carinho, um presente, um almoço, ou até um simples conselho, um telefonema eventual, um e-mail, talvez, perguntando se está tudo bem, se precisa de ajuda. E descobre que o fim da história mal resolvida não tem explicação. E se ela perguntar um dia se você entendeu as decisões dela, você devolve: "De ter me largado? Não, e você entendeu?" Sabe o que ela dirá? "Também não."
Descobre que os filhos quando crescem não têm nada a ver com os pais nem se encaixam nas projeções, comparações ou expectativas criadas na infância. Descobre que, mesmo filiado a uma geração que quebrou tabus e diminuiu o gap entre pais e filhos, os segundos nunca entenderão os primeiros, haverá um conflito que parece ser a força motriz das relações: o novo nega o antigo, o dominante perde espaço, o gene é aprimorado.
Você descobre que a moda da sua adolescência volta. Com outros pingentes e significados. A roupa não vem com a simbologia contestatória ou alienante, nem com a mesma trilha musical ou discussões existenciais. A bata que você usou no passado vira moda novamente, mas não se cantam as mesmas músicas, nem se debatem os mesmos dilemas. A roupa volta sem conteúdo ideológico.
Descobre que as modas seguem um princípio dialético que se repete. O beat veio pra contestar o acomodado anterior. E sempre vem algo pra conservar. O hippie veio pra contestar, a disco veio pra acomodar, o punk veio pra contestar, o yuppie veio pra acomodar, o dark, pra contestar, o new wave, pra acomodar, o grunge, pra contestar, o clubber, pra acomodar, o britpop, contestar, o emo, acomodar.
Mas, de repente, ao envelhecer, você descobre que tais conceitos são relativos, como tudo, que o cara da discoteca queria dançar, como o cara da onda new wave e clubber, que há contestação no ato de pular e dançar com roupas coloridas em momentos obscuros, e há acomodação no paz e amor do hippie, que produziu o pseudo-acomodado punk niilista e autodestrutivo.
Quando você envelhece, lê cada vez menos matérias que falam de saúde ou milagres da medicina. Porque você sabe que já afirmaram que café faz mal, e já afirmaram depois que faz bem, o mesmo com o sal, o mesmo com o vinho, já aconselharam comer uma castanha-do-pará por dia e já desaconselharam, o mesmo com a pílula de alho, complexos vitamínicos, aspirina, Ginkgo biloba, até açaí. Depois de ser banida de todas as listas de dietas aconselháveis, agora dizem que carne vermelha faz bem. Que vitamina C não cura gripe, todos sabem, mas todos continuam tomando e apostando nela.
Se você está nos entas, já deve ter parado de fumar, trocou a Coca pela água com gás, e sabe que está na hora de aprender para que servem alguns botões do DVD ou comandos do celular, e sabe que está na hora de começar a ler manuais de aparelhos que estão cada vez mais sofisticados. Ler com óculos de leitura, óbvio.
Você sabe que envelheceu quando confunde giga com mega, ainda diz liquidação, em vez de sale, não sabe se o trema foi abolido, usa ASA e não pixel, descobre que as letras das bulas ou dos rótulos são em outra língua e ilegíveis, e que ler cardápio à luz de velas é desesperador.
Lamenta que o Brasil de fato não tem jeito, não cresce, é resistente a mudanças, é conservador, evita discutir temas como aborto, eutanásia, descriminalização da maconha, união homossexual, tem dificuldades em se enquadrar no time de países progressistas, e que a desigualdade só aumenta, a corrupção, idem, as favelas, idem, sabe que antes da Copa do Mundo tem aquela barulheira ufanista, e que se o Brasil perde vão procurar um culpado e terá até CPI, sabe que brasileiro não sabe perder no futebol, que continuarão a invadir gramados, e nunca ninguém será preso, que muitos camelôs venderão contrabando ou falsificados, que na apuração do carnaval vai rolar briga e protestos, na novela alguém será assassinado, outro descobrirá que não é filho de quem pensa que é, que um teminha polêmico, tipo casal do mesmo sexo se beijando, será debatido por colunistas e reprovado por religiosos.
A vantagem de envelhecer? Retirar da vida expectativas que só a tornam mais complicada e descobrir que no fundo ela é também engraçada.
(Marcelo Rubens Paiva - crônica publicada originalmente no Jornal "O Estado de São Paulo" no dia 29/07/2006)
terça-feira, julho 18, 2006
A palavra - Pablo Neruda
... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.
*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)
Pablo Neruda, pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, nasceu a 12 de julho de 1904, em Parral, no Chile. Prêmio Nobel de Literatura em 1971, sua poesia transpira em sua primeira fase o romantismo extremo de Walt Whitman. Depois vieram a experiência surrealista, influência de André Breton, e uma fase curta bastante hermética. Marxista e revolucionário, cantou as angústias da Espanha de 1936 e a condição dos povos latino-americanos e seus movimentos libertários. Diplomata desde cedo, foi cônsul na Espanha de 1934 a 1938 e no México. Desenvolveu intensa vida pública entre 1921 e 1940, tendo escrito entre outras as seguintes obras: "La canción de la fiesta", "Crepusculario", "Veinte poemas de amor y una canción desesperada", "Tentativa del hombre infinito", "Residencia en la tierra" e "Oda a Stalingrado". Indicado à Presidência da República do Chile, em 1969, renuncia à honra em favor de Salvador Allende. Participa da campanha e, eleito Allende, é nomeado embaixador do Chile na França. Outras obras do autor: "Canto General", "Odas elementales", "La uvas y el viento", "Nuevas odas elementales", "Libro tercero de las odas", "Geografía Infructuosa" e "Memorias (Confieso que he vivido Memorias)". Morreu a 23 de setembro de 1973 em Santiago do Chile, oito dias após a queda do Governo da Unidade Popular e da morte de Salvador Allende.
Do livro "Confesso que Vivi Memórias", Difel Difusão Editorial Rio de Janeiro, 1978, pág. 51, traduzido por Olga Savary, extraímos o texto acima.
O DIA DA CRIAÇÃO - VINÍCIUS DE MORAES
O dia da criação
VINÍCIUS DE MORAES
| Macho e fêmea os criou. |
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
terça-feira, junho 13, 2006
O QUE ESPERAR DE UM NOVO GOVERNO(?) LULA: NADA
O mapa da mina
Já foi dito diversas vezes que o brasileiro, que não é mais cordial como os sociólogos pensavam, é capaz de inventar o círculo quadrado ou dar nó em pingo d'água. A inventiva nacional é farta e abundante. E acho que está em processo uma nova proeza, inédita na história universal: a ditadura democrática.
Explico: a menos que ocorra um fato novo e grave (os escândalos de seu governo só impressionaram a mídia e a classe média que é bitolada pela mídia), o grosso do eleitorado nem está aí para o que houve. Votará em Lula, que tem a maior exposição e a menor contestação popular. Não apareceu no cenário político (e muito menos no cenário eleitoral) um adversário de peso que o enfrente nas urnas e na preferência do povo.
Se é certa a sua reeleição, é certa também a sua incompetência em governar, em administrar não apenas a máquina do Estado mas as correntes heterogêneas que formam a sociedade. É um demagogo vulgar, e só não chega a ser um tirano porque lhe faltam condições para isso: no fundo, é um bom sujeito.
Mas seu novo governo não terá estrutura nenhuma para levar o país a qualquer lugar, a não ser ao crescimento vegetativo de seu primeiro mandato. Ele não terá equipe nem mesmo um esquema de forças sociais que o apóiem. Será eleito e governará com os náufragos de diferentes partidos (inclusive do seu partido), que embarcarão em sua canoa -a única que parece ainda flutuar no tenebroso mar da política nacional.
Um ditador eleito democraticamente e aceitando críticas, esculhambações até do Ronaldo, e contestações, mas confiante de que o povão o aprova e o admira pelo que é e pelo que não é. Um ditador que achou o mapa da mina: torça pelo Corinthians, beba sua pinga, fale mal dos ricos e deixe o país se danar.
quinta-feira, junho 08, 2006
O país da baderna
Indignado com a baderna do MLST? Justo, mais que justo. Só não tem direito de ficar surpreso, porque: 1 - Quando o partido do governo tem toda a sua cúpula chamada de "quadrilha", pela respeitável figura do procurador-geral da República, está instaurada a baderna no mais alto escalão da República. Que surpresa pode haver quando escalões inferiores reproduzem a baderna? 2 - Quando o presidente da República confraterniza com os membros da "organização criminosa", está dado o sinal de que a baderna e o crime estão autorizados de cima.
Que surpresa pode haver quando outro grupo, simpático ao presidente, adota a baderna?
3 - Quando o presidente da República passa a mão na cabeça de quem comete o crime de violar o sigilo bancário de um cidadão, como aconteceu com o então ministro Antonio Palocci, que surpresa pode haver em que outros sintam-se estimulados a cometer crimes igualmente graves?
4 - Quando o presidente da República diz que as sessões em que se investigaram os crimes da quadrilha da qual ele é presidente de honra foram uma "tortura" para os investigados, que surpresa pode haver em que gente que apóia a candidatura de Lula resolva tomar em suas mãos o ato de "torturar" deputados e senadores?
5 - Quando o Congresso Nacional inocenta a grande maioria dos membros da "quadrilha" e seus aliados, está praticando atos que só podem ser chamados de baderna (institucional). Que surpresa pode haver no fato de grupos baderneiros resolverem imitar a baderna no local em que ela foi originalmente praticada?
O fato inescapável é que o governo Lula transformou o Brasil, sempre uma esculhambação, no território livre da baderna.
CLÓVIS ROSSI
O SEU INGLÊS PERMITE ENTENDER ESSAS QUOTES?
sexta-feira, maio 12, 2006
CARDÁPIO - invenção brasileira!
O que costuma ser chamado de invasão do português por palavras estrangeiras é assunto quente e complicado. Dos dois lados do debate, a dinâmica da língua costuma transformar em tolices as respostas simplistas demais. Nem vale-tudo nem vale-nada, eis o drama. Talvez ajude saber que a confusão não começou ontem, com o domínio do inglês. Nosso cosmopolitismo ou jequice, dependendo do ponto de vista vai longe.
No final do século 19, preocupado com a moda dos galicismos (termos importados do francês), o homeopata e latinista brasileiro Antônio de Castro Lopes (1827-1901) publicou um livro chamado Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis. Nele propunha a troca de palavras alienígenas da moda por termos que ele mesmo criava, recorrendo principalmente ao latim e ao grego. Exemplo: cinesíforo no lugar de chauffer, nasóculos por pince-nez.
Castro Lopes teve prestígio em seu tempo, fama de verdadeiro sábio. Teve críticos também. Machado de Assis, desconfiando que houvesse algo de ridículo no seu nacionalismo voluntarioso e sistemático, transformou o erudito, a quem chamava de nossa Academia Francesa, em alvo de gozações em série em suas crônicas na imprensa.
Fim da história, pensava eu. Moral: por melhores que sejam as intenções, a língua vai sempre derrotar quem tentar controlá-la na marra, como fez com Castro Lopes e seus neologismos perdidos na poeira dos séculos. Coube à leitora Gabriela Erbetta, jornalista, mostrar que essa conclusão aparentemente sofisticada também tinha sua dose daquele simplismo denunciado ali em cima. Gabriela me enviou uma das palavras criadas por Castro Lopes, uma que vingou e circula por aí, vivíssima, mais de um século depois. Dá pinta de eternidade, e é difícil negar sua superioridade sobre o original. Estou falando de cardápio.
O erudito começa condenando a palavra menu, que significa miúdo e que foi por convenção admitida para substituir essa ou outra frase semelhante: almoço, jantar ou ceia descritos pelo miúdo, minuciosamente. Passa em seguida a uma recapitulação sumária do seu método, já exposto antes, quem sabe inúmeras vezes, reafirmando com segurança notável que ficará para sempre entendido que todas as vezes que em português não tivermos termo para exprimir alguma coisa que em língua estranha seja expressa por palavra especial, recorramos ao grego ou ao latim, formando um neologismo; ou com os elementos do nosso próprio idioma criemos um novo vocábulo em condições convinháveis.
E assim chega Castro Lopes ao prato principal: O vocábulo latino charta (papel), reunido ao substantivo daps, dapis (comida, iguaria, manjar), pode produzir, e produz, com as modificações que a eufonia requer, um termo muito mais expressivo do que o menu francês. Diga-se portanto cardápio, isto é, papel, lista das comidas, das viandas. Nesta palavra, formada pela íntima soldadura das duas latinas (charta e daps, dapis), estão perfeitissimamente contidas todas as idéias que de um modo elíptico buscaram os franceses exprimir com o seu vocábulo menu.
Não é que deu certo?
(A palavra é...... http://nomínimo.ibest.com.br)
domingo, maio 07, 2006
MÁRIO QUINTANA
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você, e principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
segunda-feira, maio 01, 2006
sexta-feira, abril 28, 2006
Coragem para mudar de lado - A QUESTÃO DA ENERGIA NUCLEAR
Patrick Moore (Patrick Moore é cientista, fundou o Greenpeace e hoje preside a Greenspirit Strategies Ltd.)
No início dos anos 1970 quando ajudei a fundar o Greenpeace, eu acreditava que a energia nuclear fosse sinônimo de holocausto nuclear, como a maioria de meus compatriotas. Foi essa convicção que inspirou a primeira viagem do Greenpeace até a espetacular costa rochosa para protestar contra o teste de bombas de hidrogênio americanas nas Ilhas Aleutas, no Alasca. Trinta anos depois, minhas opiniões mudaram, e o resto do movimento ambientalista precisa atualizar suas opiniões também. A energia nuclear simplesmente pode ser a fonte de energia capaz de salvar nosso planeta de outro desastre: uma mudança climática catastrófica.
Vejamos: mais de 600 usinas elétricas movidas a carvão nos Estados Unidos produzem 36% das emissões americanas - ou quase 10% - das emissões globais de CO2, o principal gás responsável pelo efeito estufa e a mudança climática. É nuclear a única fonte de energia de larga escala e economicamente capaz de reduzir essas emissões. E esse processo pode ser feito em condições de segurança. Digo isso com reservas, é claro, poucos dias depois que o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad anunciou que seu país havia conseguido enriquecer urânio. "A tecnologia nuclear é apenas para fins pacíficos e nada mais", disse ele. Existe a especulação generalizada de que, mesmo que o processo seja ostensivamente dedicado à produção de eletricidade, ele é, na verdade, uma fachada para a construção de armas nucleares.
Embora que não subestimemos os perigos reais da tecnologia nuclear nas mãos de Estados irresponsáveis, não podemos banir toda tecnologia que seja potencialmente perigosa. Essa era a "mentalidade do tudo ou nada" do auge da guerra fria, quando tudo que fosse nuclear parecia anunciar o fim da humanidade. Em 1979, Jane Fonda e Jack Lemmon produziram um arrepio mundial de medo interpretando seus papéis em A Síndrome da China, uma evocação ficcional do desastre nuclear, em que o derretimento de um reator ameaça a sobrevivência de uma cidade. Menos de duas semanas depois do lançamento do filme, o derretimento de um núcleo do reator na usina nuclear de Three Mile Island, na Pensilvânia, causou calafrios reais em todo o país.
O que ninguém percebeu, na época, foi que Three Mile Island se converteu numa história de sucesso: a estrutura de contenção de concreto da usina fez exatamente o que fora projetada para fazer - impedir que a radiação escapasse para o ambiente. Embora o reator tivesse ficado avariado, não houve mortos nem feridos entre os trabalhadores do local e os moradores da vizinhança. Three Mile Island foi o único acidente grave na história da geração de energia nuclear nos EUA, mas foi suficiente para brecar o desenvolvimento da tecnologia: nenhuma usina nuclear foi encomendada desde então. Hoje existem 103 reatores nucleares fornecendo, silenciosamente, 20% da eletricidade do país. Cerca de 80% das pessoas que vivem num raio de 16 quilômetros dessas usinas, aprovam-nas sem restrições.
Não sou o único, entre os ativistas ambientais experimentados, a mudar de idéia sobre este assunto. O cientista britânico James Lovelock acredita que a energia nuclear é a única maneira de evitar uma catástrofe climática. Stewart Brand, que criou o Whole Earth Catalogue, diz que o movimento ambientalista precisa abraçar a energia nuclear para nos livrar dos combustíveis fósseis. Em outras épocas, opiniões como essas foram recebidas com a excomunhão pelo clero antinuclear: o bispo britânico Hugh Montefiore, fundador e diretor da organização Friends of the Earth, foi obrigado a renunciar da diretoria do grupo depois que escreveu um artigo a favor da energia nuclear num boletim de igreja.
É bem verdade que as energias eólica e solar têm o seu lugar, mas, como são intermitentes e imprevisíveis, elas simplesmente não podem substituir grandes usinas, como as movidas a carvão, nucleares e hidrelétricas. O gás natural, um combustível fóssil, já é muito caro, e seu preço, volátil demais para se arriscar a construir grandes usinas com base nele. Como os recursos hidrelétricos já estão sendo explorados quase no limite, a energia nuclear é, por eliminação, a única substituta viável para o carvão. Simples assim.
Existem os problemas reais - assim como vários mitos - associados à energia nuclear. Mas cada preocupação merece uma consideração cuidadosa:
Energia nuclear é cara. Ela é, na verdade, uma das fontes de energia menos caras. Em 2004, o custo médio de produzir energia nuclear nos EUA foi menos de dois centavos de dólar por quilowatt-hora, comparável ao da energia a carvão e hidrelétrica. Avanços na tecnologia reduzirão esse custo no futuro.
As usinas nucleares não são seguras. Embora Three Mile Island tenha sido uma história de sucesso, o acidente em Chernobyl, há 20 anos este mês, não foi. Mas Chernobyl foi um acidente anunciado. Aquele modelo primitivo de reator soviético não tinha vaso de contenção, era um projeto ruim e seus operadores literalmente o explodiram. O Fórum Chernobyl da ONU, organismo formado por diversas agências, reportou no ano passado que 56 mortes poderiam ser atribuídas diretamente ao acidente, maioria delas por radiação ou queimaduras sofridas no combate ao incêndio. Por trágicas que essas mortes tenham sido, elas empalidecem na comparação com as mais de 5 mil mortes de mineiros de carvão que ocorrem anualmente em todo o mundo.
O lixo nuclear é perigoso por milhares de anos. Num prazo de 40 anos, o combustível usado tem menos de um milésimo da radioatividade que tinha quando foi tirado do reator. É incorreto chamá-lo de lixo, porque 95% da energia potencial continua contida no combustível usado depois do primeiro ciclo. Agora que os EUA retiraram a proibição da reciclagem de combustível usado, será possível usar essa energia e reduzir em muito a quantidade de lixo que precisa de tratamento e eliminação. No mês passado, o Japão juntou-se à França, Grã-Bretanha e Rússia no negócio de reciclagem de combustível nuclear. Os EUA não ficarão por muito tempo atrás.
Reatores nucleares são alvos de ataques terroristas. O vaso de contenção de concreto, com 1,80 m de espessura, protege conteúdos tanto de dentro para fora, quanto de fora para dentro. Mesmo que um avião Jumbo se chocasse com o reator e rompesse o invólucro, o reator não explodiria. Há no mundo instalações muito mais vulneráveis, como as usinas de gás natural líquido, por exemplo.
O combustível nuclear pode ser desviado para a fabricação de armas nucleares. Este é o problema mais sério e o mais difícil de resolver, vide o caso do Irã. Mas o fato de a tecnologia nuclear poder ser usada para fins malignos não é um argumento para banir seu uso. Nos últimos 20 anos, uma das ferramentas mais simples - o facão - foi usada para matar mais de 1 milhão de pessoas na África, muito mais do que os mortos nos bombardeios nucleares de Hiroshima e Nagasaki juntos.
domingo, abril 23, 2006
GRIPE SE CURA COM BAILEYS!!
Cerca-lourenço
Mas por que desdobrar o discurso para dar a volta no real, quando se pode atacá-lo de frente? Para não irritar o Lourenço, é claro. Pouca gente repara, mas vivemos tempos de glorificação do circunlóquio. Não é outra coisa a moda politicamente correta de chamar, por exemplo, menores infratores de adolescentes em conflito com a lei e deficientes de portadores de necessidades especiais. Somos todos Lourenços.
quarta-feira, abril 19, 2006
Comentando a crônica do Machado de Assis - Mensalão e caixa 2
(Atenção: Leia antes a Crônica do Machado de Assis, logo abaixo)
O mote principal da crônica postada abaixo é o uso corriqueiro da expressão quilo mal pesado. O espanto de Machado de Assis com a desfaçatez do seu uso é o mesmo dos cronistas atuais com o emprego da expressão recursos não contabilizados para explicar o uso de caixa 2, dinheiro com origens escusas e inconfessáveis.
Parodiando o mestre: Pára, amigo leitor; não te importes com o resto das cousas nem dos homens. Com um osso, queria o outro reconstruir um animal; com aquela só palavra, podemos recompor um animal, uma família, uma tribo, uma nação, um continente de animais, um partido político de enganadores.
Fecho os olhos e imagino a cena. O Delúbio Soares, na CPI, com aquela cara de dopado, dizendo: foi apenas alguns quilos mal pesados ..... O Lula em Paris, nos jardins do castelo: Não tem nada de mais, é da tradição brasileira o quilo mal pesado ....
Deixando os caras-de-pau de lado e voltando ao peso real da carne, hoje a discussão sobre o quilo bem ou mal pesado perdeu um pouco a sua substância com o advento das balanças digitais. Antigamente eram utilizadas balanças com dois pratos. Em um deles colocava-se a mercadoria a ser pesada e no outro ia-se pondo pesos metálicos graduados até haver o equilíbrio estável dos dois pratos. Os comerciantes usavam artifícios para obter um peso bem ou mal pesado, conforme o seu interesse, mas sempre sob risco das reclamações exaltadas dos consumidores. Usava-se, também, as balanças de mola, portáteis, com um prato ou gancho único onde era colocada a mercadoria a ser pesada, verificando-se o peso numa escala graduada. A coisa toda era mecânica, todos entendiam o princípio físico da pesagem.
Hoje o processo é digital. Coloca-se a mercadoria numa superfície plana metálica e o peso é constatado no visor digital luminoso. Depois, é impressa uma etiqueta com o peso, o preço e o código de barras. O consumidor não vê o funcionamento do sistema de pesagem e tem que acreditar na etiqueta. Tudo digital, tudo muito moderno, mas os dígitos dos comerciantes estão lá: haja quilo mal pesado!
Quando eu era garoto, lembro de ter visto o vendedor ambulante de carne, principalmente miúdos como fígado, dobradinha, rabada, etc. Ele usava um triciclo com cofre metálico onde a carne era transportada. Depois de cortada e pesada, numa balança de mola quilo mal pesado ou quilo justo?, ela era enrolada em papel encerado. O peixeiro usava o mesmo sistema.
Já que estamos no campo das lembranças infantis, não podemos esquecer do leiteiro, com sua carroça de madeira, fechada e revestida de chapa metálica, onde eram acondicionados os engradados feitos com finas barras de ferro e as garrafas de vidro. As cervejas em engradados de madeira, o chope em barris de madeira e cinturão de aço.
Na crônica chamam atenção os dois sentidos do verbo lapidar. O próprio Machado de Assis implora pelo emprego do verbo na acepção atual: Ou lapidem-nos, mas no sentido em que se lapida um diamante, para se lhe deixar o puro brilho da espécie. O outro sentido do verbo está na frase Não nos hão de lapidar por atos que são antes efeito de uma epidemia do tempo. Pegou o sentido, caro leitor? Não? Eu também não. Fui ao dicionário, quinta acepção: matar a pedradas, apedrejar. Que tal a gente lapidar uns políticos? E políticos pataus são abundantes. Caríssimo leitor, não seja um patau também. Visite o pai dos burros.
Por falar nisso, será que Machado de Assis anteviu os políticos modernos, um Lula por exemplo, quando escreve que vi estadistas que tinham de ciência política um quilo muito mal pesado?
O açougueiro ameaça o consumidor com um quilo mal pesado se tiver de respeitar a tabela. O velho problema do tabelamento de preços, que nunca pegou. O ápice foi no Plano Cruzado de triste memória, fiscais do Sarney, desabastecimento, o hoje Senador Tuma caçando de helicóptero bois no pasto.
Quem sabe se não estamos precisando de mais filosofia feita com o facão na alcatra?




