Comentando a crônica do Machado de Assis - Mensalão e caixa 2
(Atenção: Leia antes a Crônica do Machado de Assis, logo abaixo)
O mote principal da crônica postada abaixo é o uso corriqueiro da expressão quilo mal pesado. O espanto de Machado de Assis com a desfaçatez do seu uso é o mesmo dos cronistas atuais com o emprego da expressão recursos não contabilizados para explicar o uso de caixa 2, dinheiro com origens escusas e inconfessáveis.
Parodiando o mestre: Pára, amigo leitor; não te importes com o resto das cousas nem dos homens. Com um osso, queria o outro reconstruir um animal; com aquela só palavra, podemos recompor um animal, uma família, uma tribo, uma nação, um continente de animais, um partido político de enganadores.
Fecho os olhos e imagino a cena. O Delúbio Soares, na CPI, com aquela cara de dopado, dizendo: foi apenas alguns quilos mal pesados ..... O Lula em Paris, nos jardins do castelo: Não tem nada de mais, é da tradição brasileira o quilo mal pesado ....
Deixando os caras-de-pau de lado e voltando ao peso real da carne, hoje a discussão sobre o quilo bem ou mal pesado perdeu um pouco a sua substância com o advento das balanças digitais. Antigamente eram utilizadas balanças com dois pratos. Em um deles colocava-se a mercadoria a ser pesada e no outro ia-se pondo pesos metálicos graduados até haver o equilíbrio estável dos dois pratos. Os comerciantes usavam artifícios para obter um peso bem ou mal pesado, conforme o seu interesse, mas sempre sob risco das reclamações exaltadas dos consumidores. Usava-se, também, as balanças de mola, portáteis, com um prato ou gancho único onde era colocada a mercadoria a ser pesada, verificando-se o peso numa escala graduada. A coisa toda era mecânica, todos entendiam o princípio físico da pesagem.
Hoje o processo é digital. Coloca-se a mercadoria numa superfície plana metálica e o peso é constatado no visor digital luminoso. Depois, é impressa uma etiqueta com o peso, o preço e o código de barras. O consumidor não vê o funcionamento do sistema de pesagem e tem que acreditar na etiqueta. Tudo digital, tudo muito moderno, mas os dígitos dos comerciantes estão lá: haja quilo mal pesado!
Quando eu era garoto, lembro de ter visto o vendedor ambulante de carne, principalmente miúdos como fígado, dobradinha, rabada, etc. Ele usava um triciclo com cofre metálico onde a carne era transportada. Depois de cortada e pesada, numa balança de mola quilo mal pesado ou quilo justo?, ela era enrolada em papel encerado. O peixeiro usava o mesmo sistema.
Já que estamos no campo das lembranças infantis, não podemos esquecer do leiteiro, com sua carroça de madeira, fechada e revestida de chapa metálica, onde eram acondicionados os engradados feitos com finas barras de ferro e as garrafas de vidro. As cervejas em engradados de madeira, o chope em barris de madeira e cinturão de aço.
Na crônica chamam atenção os dois sentidos do verbo lapidar. O próprio Machado de Assis implora pelo emprego do verbo na acepção atual: Ou lapidem-nos, mas no sentido em que se lapida um diamante, para se lhe deixar o puro brilho da espécie. O outro sentido do verbo está na frase Não nos hão de lapidar por atos que são antes efeito de uma epidemia do tempo. Pegou o sentido, caro leitor? Não? Eu também não. Fui ao dicionário, quinta acepção: matar a pedradas, apedrejar. Que tal a gente lapidar uns políticos? E políticos pataus são abundantes. Caríssimo leitor, não seja um patau também. Visite o pai dos burros.
Por falar nisso, será que Machado de Assis anteviu os políticos modernos, um Lula por exemplo, quando escreve que vi estadistas que tinham de ciência política um quilo muito mal pesado?
O açougueiro ameaça o consumidor com um quilo mal pesado se tiver de respeitar a tabela. O velho problema do tabelamento de preços, que nunca pegou. O ápice foi no Plano Cruzado de triste memória, fiscais do Sarney, desabastecimento, o hoje Senador Tuma caçando de helicóptero bois no pasto.
Quem sabe se não estamos precisando de mais filosofia feita com o facão na alcatra?

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