Fotografia Clássica
| (trechos do artigo "O digital e o fim da mística da fotografia", de Pedro Karp Vasquez, publicado no Jornal O Globo, 8 de abril de 2006) (...) Pretendo comentar aqui, no entanto, apenas um dos aspectos do presente período de transição, subsidiário, porém fundamental: o da perda da mística da imagem, num momento em que até os telefones, os relógios e até mesmo os reles chaveiros fotografam. Ao criar a Kodak, em fins do século XIX, George Eastman acreditava estar democratizando em definitivo a prática da fotografia, ao alforriá-la das complicações técnicas com seu célebre slogan: Aperte o botão e nós faremos o resto. Enganava-se, pois até a fotografia com câmaras descartáveis exige, se não uma certa ciência, pelo menos um determinado grau de atenção dos seus praticantes. Ao passo que com a imagem digital, realmente basta apertar o botão e o equipamento faz o resto. (....) Tudo era mágico no universo da fotografia clássica. Quando surgiram os estúdios, os clientes neles entravam contritos e admirados, como quem ingressa num templo. Espaço sagrado que, naturalmente, possuía sua câmara secreta, de acesso restrito apenas aos iniciados: o laboratório, onde se processavam misteriosos procedimentos alquímicos para transformar a prata das emulsões nos envolventes tons da imagem em preto-e-branco. A mística prata, venerada como símbolo maior do princípio feminino e, portanto, associada à Lua, companheira do Sol, representado pelo ouro. Nos mitos dos antigos egípcios, os ossos dos deuses eram feitos de prata e a carne de ouro, ao passo que na mística cristã a prata simbolizava a sabedoria divina e o ouro o amor de Deus pelos homens. Não é de se estranhar, portanto, que um sistema de produção de imagens baseado no caráter fotossensível dos sais de prata seja dotado de uma aura mágica e encantadora. Não existe fotografia sem luz, como a própria etimologia do termo explica: escrita da luz. A principal fonte de luz era, e continua sendo, o Sol. Assim, quando o Sol fecundava a prata contida na emulsão das chapas, e, depois, dos filmes fotográficos, era preciso fazer com que essas imagens pudessem vir à luz de novo, que pudessem nascer, graças aos sábios procedimentos do fotógrafo/obstetra. O filme exposto e ainda não processado havia de fato sofrido uma espécie de fecundação, e continha a chamada imagem latente, que só podia ser visível graças a um procedimento similar ao do parto, capaz de tornar visível o que se sabe existente porém ainda não pode ser visualizado. Não por acaso, deu-se o nome de revelação a esse processo, que mescla triunfo e angústia, fé irrestrita e dúvida insidiosa. A mãe aflita conta os membros e os dedinhos do recém-nascido, para verificar se está tudo em ordem. O fotógrafo também se angustia com eventuais imperfeições, verificando se a exposição foi correta e se a imagem está em foco, pois ele sabe que a fecundação exposição, em linguagem fotográfica é apenas parte do processo, que só terminará no laboratório/maternidade, onde ele trará essa imagem à luz, com o mesmo carinho com que a mãe dá à luz seu bebê. PEDRO KARP VASQUEZ é escritor e fotógrafo, e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro |

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