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Local: São Paulo, São Paulo, Brazil

Um cidadão não tão jovem, espírito de estagiário, sempre procurando aprender, mas lutando para não esquecer as experiências e não repetir os mesmos erros.

sexta-feira, maio 12, 2006

CARDÁPIO - invenção brasileira!


O que costuma ser chamado de “invasão” do português por palavras estrangeiras é assunto quente – e complicado. Dos dois lados do debate, a dinâmica da língua costuma transformar em tolices as respostas simplistas demais. Nem vale-tudo nem vale-nada, eis o drama. Talvez ajude saber que a confusão não começou ontem, com o domínio do inglês. Nosso cosmopolitismo – ou jequice, dependendo do ponto de vista – vai longe.

No final do século 19, preocupado com a moda dos galicismos (termos importados do francês), o homeopata e latinista brasileiro Antônio de Castro Lopes (1827-1901) publicou um livro chamado “Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis”. Nele propunha a troca de palavras alienígenas da moda por termos que ele mesmo criava, recorrendo principalmente ao latim e ao grego. Exemplo: “cinesíforo” no lugar de chauffer, “nasóculos” por pince-nez.

Castro Lopes teve prestígio em seu tempo, fama de verdadeiro sábio. Teve críticos também. Machado de Assis, desconfiando que houvesse algo de ridículo no seu nacionalismo voluntarioso e sistemático, transformou o erudito, a quem chamava de “nossa Academia Francesa”, em alvo de gozações em série em suas crônicas na imprensa.

Fim da história, pensava eu. Moral: por melhores que sejam as intenções, a língua vai sempre derrotar quem tentar controlá-la na marra, como fez com Castro Lopes e seus neologismos perdidos na poeira dos séculos. Coube à leitora Gabriela Erbetta, jornalista, mostrar que essa conclusão aparentemente sofisticada também tinha sua dose daquele simplismo denunciado ali em cima. Gabriela me enviou uma das palavras criadas por Castro Lopes, uma que vingou e circula por aí, vivíssima, mais de um século depois. Dá pinta de eternidade, e é difícil negar sua superioridade sobre o original. Estou falando de “cardápio”.

O erudito começa condenando a palavra menu, que significa “miúdo” e que foi “por convenção admitida para substituir essa ou outra frase semelhante: almoço, jantar ou ceia descritos pelo miúdo, minuciosamente”. Passa em seguida a uma recapitulação sumária do seu método, já exposto antes, quem sabe inúmeras vezes, reafirmando com segurança notável que “ficará para sempre entendido que todas as vezes que em português não tivermos termo para exprimir alguma coisa que em língua estranha seja expressa por palavra especial, recorramos ao grego ou ao latim, formando um neologismo; ou com os elementos do nosso próprio idioma criemos um novo vocábulo em condições convinháveis”.

E assim chega Castro Lopes ao prato principal: “O vocábulo latino charta (papel), reunido ao substantivo daps, dapis (comida, iguaria, manjar), pode produzir, e produz, com as modificações que a eufonia requer, um termo muito mais expressivo do que o menu francês. Diga-se portanto cardápio, isto é, papel, lista das comidas, das viandas. Nesta palavra, formada pela íntima soldadura das duas latinas (charta e daps, dapis), estão perfeitissimamente contidas todas as idéias que de um modo elíptico buscaram os franceses exprimir com o seu vocábulo menu”.

Não é que deu certo?

 (A palavra é......   http://nomínimo.ibest.com.br)